Representatividade feminina negra na Medicina

Se a medicina no Brasil tivesse cor, qual seria?

Vamos a um exercício: imagine que você entra em um hospital de uma grande cidade. Um hospital moderno, com equipamentos de ponta e medicina altamente especializada. Observe o ambiente. Agora imagine que um profissional de saúde se aproxima para te atender. Repare nesta pessoa: Quem ela é? Um homem ou uma mulher? Qual a raça?

Muito provavelmente, a imagem que veio à sua mente foi de uma pessoa branca. E não é coincidência. Mesmo em um país majoritariamente negro, a medicina brasileira ainda tem cor, e é branca.

O primeiro aspecto que fortalece essa narrativa é que a medicina continua sendo uma profissão profundamente elitizada. O custo da formação é altíssimo: muitas faculdades privadas têm mensalidades que ultrapassam R$10 mil por mês, criando obstáculos que afastam estudantes de escolas públicas, periferias e do interior. Enquanto isso, a chamada “medicina do postinho”, da atenção básica e da saúde da família, continua menos valorizada.

Outro ponto a considerar é que a maioria dos médicos brasileiros ainda é branca, longe de refletir a diversidade do país. Dados do Censo Demográfico 2022 mostram que 75,5% dos médicos se declaram brancos, enquanto apenas 2,8% se declaram pretos e 19% pardos. Mesmo somando pretos e pardos, que representam mais da metade da população, a presença de negros na medicina continua baixa — e a de mulheres negras é ainda menor, resultado de décadas de desigualdade educacional, barreiras econômicas e racismo estrutural no acesso ao ensino superior e à carreira médica. Mesmo aqueles que conseguem se formar enfrentam estereótipos, questionamentos sobre sua competência e obstáculos na progressão de carreira.

Então fica a pergunta: se o Brasil é um país majoritariamente negro, por que a medicina ainda não é?

Ampliar a presença de mulheres negras na medicina é fundamental para construir um sistema de saúde mais representativo. A diversidade entre profissionais fortalece a relação médico-paciente, amplia perspectivas no cuidado e contribui para reduzir desigualdades históricas no acesso e na qualidade da atenção à saúde.

Talvez a transformação da saúde não dependa apenas de equipamentos ou tecnologias de ponta. Talvez ela comece quando quem cuida da saúde da população se pareça com ela.

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