Por Mel Brito, jornalista, colaboradora Comunicação SAS Brasil

A estudante Bianca Torres conheceu o SAS Brasil por meio de sua mãe, Jessica, que era colaboradora da Roche quando começou a atuar como voluntária. Foi assim que ela se envolveu nas ações, mas o voluntariado e o conceito de fazer o bem apareceram em sua vida bem antes. Bianca, que já foi voluntária SAS Brasil duas vezes, está desde o ano passado à frente de uma campanha muito bonita: ela arrecada livros para uma biblioteca em Angola, no Assentamento de Refugiados do Congo em Lóvua.

A ideia surgiu após uma visita que Bianca e o pai fizeram ao local, gerenciado pelo Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados). Na ocasião, eles levaram alguns livros infantis e gibis, o que causou alvoroço nas crianças e adolescentes locais. “As pessoas queriam ouvir minhas histórias e tocar nos meus livros”, conta. O projeto foi aprovado pela ONU e tem o apoio do CCBA (Centro Cultural Brasil-Angola), entidade ligada à embaixada brasileira em Luanda, capital angolana.

Bianca é recebida por crianças do centro de refugiados em Angola

A biblioteca será inaugurada em Lóvua em breve, ainda sem data definida. “Tivemos um sinal verde para mandar uma quantidade maior de livros já que a biblioteca atenderá a população de refugiados e alunos de três escolas permanentes”, conta a jovem. Por isso, ela tem ampliado a campanha, buscando livros “interessantes e em bom estado”. A ideia é reunir livros infantis, de literatura juvenil e adulta, além de gibis. Segundo ela, apostilas ou livros didáticos não servem.

A campanha de Bianca teve tanta repercussão que foi tema de uma reportagem da afiliada da TV Globo em Jundiaí. As doações ainda podem ser feitas. De acordo com a família de Bianca, parte dos livros e gibis será doada para as ações do SAS Brasil. Para fazer uma doação e acertar os detalhes, basta entrar em contato com Demetrius, pai da adolescente, pelo telefone (11) 99750-8073.

Festa de 15 anos e refugiados

A história começou em novembro de 2017, quando Bianca tinha apenas 14 anos. Ela abriu mão de sua festa de debutante – sonho de muitas meninas de sua idade – para visitar o centro de refugiados. A ideia surgiu quando a adolescente estava fazendo um trabalho escolar para a disciplina de geopolítica. “Enquanto eu planejava minha festa de 15 anos, tive que fazer um trabalho comparando o PIB de países africanos e europeus”, lembra Bianca. “Foi quando vi que no Níger eles tinham um PIB per capita de apenas 300 dólares (cerca de 1,1 mil reais)”. Apenas por comparação, o PIB per capita brasileiro em 2017 era de cerca de US$ 9,8 mil.

A adolescente conta que começou a pensar em como uma pessoa poderia viver com um valor tão baixo. “Em uma noite, na minha festa de 15 anos, eu iria gastar muito mais do que isso”, diz. “Cheguei à conclusão de que não poderia cooperar com essa realidade”, lembra a estudante. A escolha do país foi feita por um amigo da mãe que trabalha na ONU. “Ele me convidou para ir para Angola conhecer o campo”, diz. Ela e o pai, Demetrius, viajaram juntos para a África. “Chegando lá, fiquei encantada com a forma como fui recebida pelos refugiados”, lembra. “Percebi que a carência deles ia muito além de bens materiais, eles eram carentes de educação, de entretenimento”, diz.

Bianca, o irmão, Rodrigo, e os pais durante ação do SAS Brasil no Jaguaré (SP)

Isso despertou o interesse de construir uma biblioteca no local para que as crianças e jovens pudessem estudar e se divertir por meio da leitura, algo que sempre foi presente na vida da adolescente brasileira. “Amo livros, acho a leitura muito importante, ela faz parte da minha vida desde que eu era muito pequena”, diz Bianca. Quando ela chegou de volta ao Brasil, lançou a campanha de arrecadação de livros. Durante a campanha, o Acnur e o CCBA conseguiram um patrocínio para transportar 1 tonelada de livros por avião. “Quando pesamos os livros arrecadados, faltando pouco tempo para o envio, percebemos que não tínhamos nem a metade da meta”, lamenta Bianca. A mãe da adolescente conta: “A campanha recomeçou em caráter de urgência”.

Para ajudar nessa nova fase da campanha, a família Torres contou com o apoio de amigos e colaboradores, como as equipes de robótica X-Bots, do colégio Divino Salvador, em Jundiaí, SESI, ETEVAV e várias escolas na região, que se mobilizaram e arrecadaram livros e gibis. Até o criador da “Turma da Mônica”, Mauricio de Souza, fez doações para o projeto. O próprio Mauricio fez questão de se encontrar com a menina e ficou encantado com a história.

Bianca e a família se reuniram com o criador da ‘Turma da Mônica’, Mauricio de Souza

“Fizemos duas arrecadações para esse projeto”, conta Bianca. Na primeira, foram arrecadados mais ou menos 4 mil livros. “Mas percebemos que precisamos de muito mais livros, pois a biblioteca atenderá não só as crianças e adolescentes, mas também os adultos do assentamento, proporcionando lazer, cultura e conhecimento”, comemora a adolescente, que viajará para o país para a inauguração. Ela conta que os custos para levar os livros doados até o aeroporto de Guarulhos, de onde partirão para Angola, ficarão por conta dos pais.

Projetos sociais desde sempre

A família de Bianca sempre esteve envolvida com projetos sociais. Esse desejo de ajudar ao próximo foi algo que ela e o irmão mais novo, Rodrigo, aprenderam dentro de casa. Ela conta que os dois encontraram nos pais todo apoio de que precisavam para seguir sonhando e acreditando em um mundo melhor. “Conheci o SAS Brasil através da minha mãe, quando ela trabalhava na Roche”, relembra Bianca. “Quando ela voltou da primeira ação do SAS Brasil, em Sete Barras, estava encantada com tudo que vivenciou e acabou contagiando a família toda”.

Segundo a adolescente, quando Jessica contou do envolvimento dos voluntários e dos benefícios para as comunidades atendidas, todos em casa ficaram muito interessados. “Assim que surgiu uma oportunidade fomos a família toda”, recorda Bianca, entusiasmada. O envolvimento dela com o SAS Brasil não parou nas expedições. Bianca participou da construção de uma “biblioteca itinerante” com material comprado com o dinheiro que ela mesma arrecadou e doou para a ONG.

A biblioteca itinerante construída com o dinheiro doado por Bianca viaja com o SAS Brasil

“Quando desisti da festa, eu e meus pais resolvemos doar uma parte do dinheiro (que seria gasto com a festa) para duas ONGs”, conta. Uma delas foi o SAS Brasil. Quando conversaram com a coordenadora geral da ONG, a médica Adriana Mallet, receberam uma sugestão diferente. “Ela disse que em vez de só pegar o dinheiro e usar com a instituição, queria construir alguma coisa que tivesse a ver com o meu projeto”. Daí nasceu a ideia de montar a biblioteca itinerante. “Achei o resultado incrível, fiquei muito feliz em poder ampliar o projeto para mais cidades”, disse a jovem. O caminhãozinho foi construído de graça por Alan Gomes, que também é voluntário do SAS Brasil.

Desde os 11 anos, Bianca faz parte de um grupo filantrópico que presta serviços à comunidade por meio da doação de cadeiras de rodas, alimentos etc. Ela já chegou a ser líder, cargo mais alto do grupo. “Já fui a hospitais na Páscoa para doar chocolate e pintar o rostinho das crianças, no Dia das Crianças vou em várias creches e sempre fazemos arrecadações para poder doar”, conta.

No fim de junho, Bianca foi selecionada para a delegação brasileira do 24th Youth Assembly, uma assembleia organizada pela Friendship Ambassadors Foundation, parceira da ONU. “Muitos dos palestrantes são oficiais das Nações Unidas e durante muito tempo o evento aconteceu na própria sede da ONU, em Nova York”, conta a mãe, orgulhosa. Na segunda semana de agosto Bianca viaja para Washington DC para o evento. “Vão discutir temas globais com representantes do mundo todo, inclusive líderes. É uma oportunidade e tanto para uma menina de 16 anos”, diz Jessica.

Para doar livros ou gibis, fale com Demetrius, pai de Bianca:
(11) 99750-8073