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OPINIÃO: Um recado importante para quem ainda bebe e dirige

por Sávio Mourão Henrique

Às 23h45 da última quinta-feira (26/11), o Júri Popular votou pela condenação do assassino de minha primeira esposa, Anariá Recchia, por homicídio com dolo eventual e agravante por risco comum. Exatos quatro anos, sete meses e treze dias depois que o assassino decidiu consumir bebida alcoólica e dirigir e, depois do atropelamento na calçada, fugiu sem prestar socorro, nem demonstrar arrependimento ou sinal de sequer se importar com o ocorrido, ele foi condenado a 24 anos e 6 meses de prisão. No Brasil, isso significa que ele vai passar nove anos, nove meses e dezoito dias em prisão fechada. Depois disso, ele poderá progredir para o regime semiaberto por mais cinco anos, dez meses e dezesseis dias. E então para a liberdade condicional, até que a totalidade da pena seja cumprida e o assassino seja definitivamente reintegrado à sociedade vinte e quatro anos e meio depois.

Sinto que justiça foi feita porque seu egoísmo o transformou em criminoso. Porque ele decidiu ignorar o que todos sabem e que vitima dezenas de milhares de brasileiras e brasileiros por ano: o carro é uma arma e portar uma arma ou dirigir um carro fora de condições plenas de consciência (com ingestão de qualquer quantidade de bebida alcoólica ou de qualquer droga) explicita sua escolha egoísta por colocar a vida dos demais em risco e o total descomprometimento com a segurança da sociedade.

Consumir bebida alcoólica e dirigir é demonstrar ausência plena de empatia também por seus amigos e familiares. É demonstrar absoluta indiferença com a vida alheia, protegido por sua armadura metálica de mais de uma tonelada, o ímpeto de contrariar a regra moral básica de respeito à vida, expressa no nosso código de trânsito desde 2008. Aliás, que nem deveria estar ali, uma vez que já temos leis suficientes para tratar de homicídio no código civil.

Legado de Anariá

Em vida, Anariá sempre defendeu primeiramente as mulheres, os vulneráveis, as minorias e o Brasil. De sua luta, na saga por se tornar diplomata, inspirada em Sergio Vieira de Mello, e na atribuição de educar seus próprios concorrentes, iluminou com a sua humildade, inteligência e carisma quem teve o prazer de conhecê-la. Com a vida ceifada aos 32 anos, perdemos todos nós. O menosprezo e desdém, que produzem a violência nos corações de alguns poucos individualistas rancorosos, nos tira Anariás, Marielles, Andersons, Betos, Marinas, Vitors, e todos os outros que o Brasil perdeu, que as famílias perderam.

Se não conseguem pensar com compaixão pelas outras pessoas, nem como exemplo para os que cercam a vocês e a seus filhos, então que pese o risco de que sejam presos e arruinem as próprias vidas dentro da cadeia por um ato tão efêmero. Ainda raro, o julgamento do assassino de Anariá foi exemplar em aplicar a lei e ao demonstrar a opinião da sociedade. Os próximos virão. Assassinos não passarão.

Admiração e gratidão

Aqui faço um agradecimento ao Marcelo, ao Gabriel, ao promotor do caso e aos demais envolvidos na defesa da Anariá. Quero declarar publicamente a minha admiração por sua coragem e perseverança. Vocês escreveram seus nomes na história – se não na história do Brasil, com certeza na história das nossas famílias. Meu muito obrigado, verdadeiro e profundo, por terem se esforçado, desde os primeiros dias, na correta instrução do caso, e até o fim, com a impecável atuação no tribunal. Vazio estava circunstancialmente. Mas hoje vocês representam a esperança por justiça das famílias de milhares de pessoas que foram brutalmente assassinadas pelo abuso de beber e dirigir.

Meu muito obrigado também aos jurados e ao juiz, ao escrivão Antônio e à pessoa que me socorreu largado no chão após ter que esgarçar toda a minha dor. Meu muito obrigado especial às pessoas que ficaram ao nosso lado por simples consciência social e cívica, interessadas na justiça tanto quanto nós: Letícia, Roger e Edivaldo. Outros com certeza se compadecem da nossa dor, mas vocês todos foram bastiões da justiça, da esperança em nossa sociedade.

Minha gratidão não é por mim, porque carrego uma sensação muito ambígua, entre o reconhecimento da justiça e a ausência eterna, que o julgamento não vai aplacar. Mas vejam, antes tínhamos a plena injustiça e a ausência eterna. Então, estou muito melhor que dias atrás. Para mim foi particularmente destruidor. Escrevo hoje com o que sobra da coragem, da ousadia de renascer depois de tudo que vivi.

Como disse, morri naquela esquina. Nessa segunda vida que tenho, sou tão diferente que ao me perguntarem das sequelas físicas expus as entranhas dilaceradas do meu coração. Muito obrigado por me ajudarem a reviver com um pouco mais de dignidade. De me permitirem acreditar novamente. Espero poder retribuir a vocês, à Anariá e a quem hoje me cerca, com o tempo, com um pouco mais do que eu sei que posso ser.

Aproveito para agradecer também à Luisa, minha nova esposa. Sou muito feliz de ter encontrado você. Sou muito feliz por poder te amar e por você me amar como sou. Clichê, parece. Mas sabemos que este Sávio é novo para mim mesmo. Reaprender a amar e ser amado como você me proporciona é maravilhoso. Muito obrigado.

Nota do Blog: em 2016, após o assassinato de Anariá Recchia ao ser atropelada em uma calçada de São Paulo, o SAS Brasil deu o nome dela ao projeto de saúde e valorização da mulher, causas em que ela atuava fortemente, sempre olhando para as mais vulneráveis. A homenagem é apenas uma forma de lembrar dela e de prolongar o seu legado, levando saúde a mulheres carentes de todo o país e conscientização sobre a importância de falar e de agir em casos de violência doméstica. O câncer de colo de útero, foco do projeto de saúde feminina, é ainda a quarta doença que mais mata mulheres no Brasil. Nós acreditamos que a cura para essa doença está na conscientização e no cuidado. Anariá também acreditava. Diretor do SAS Brasil, Sávio é viúvo de Anariá.   

Foto de capa: Reprodução/Movimento Viva Anariá

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