Por Gabriel Toueg, coordenador de Comunicação SAS Brasil
Fotos: Roy Bento/ equipe de Comunicação

Aconteceu na manhã deste sábado (15), na Vila Dalva, Zona Oeste de São Paulo, a primeira ação do projeto Anariá nas escolas, uma realização do SAS Brasil com o patrocínio da Roche. Com várias atividades, a ação na Escola Estadual Samuel Klabin teve depoimentos emocionantes de mulheres sobre casos de violência doméstica durante um debate que aconteceu após a encenação da peça “Felizes para sempre?”. A ação acontecerá em outras cinco escolas ao longo de 2019.

A estudante Beatriz Ribeiro Bittencourt, de 13 anos, foi uma das que relataram cenas reais de violência. Aluna da escola em que a ação aconteceu, ela juntou forças para dar seu depoimento, chorando, diante das pessoas, inclusive de professores. Beatriz relatou uma série de agressões do pai contra a mãe. Em um deles, o padrasto agrediu sua mãe e quase a matou. “É muito difícil falar sobre isso”, contou depois. “Fico imaginando como seria se a minha mãe não estivesse aqui hoje”. Ela conta que as duas têm uma relação muito próxima e carinhosa.

Beatriz, de 13 anos, contou vários episódios em que o padrasto agrediu sua mãe

Estudante do oitavo ano do ensino fundamental, Beatriz gosta de matemática e sonha em ser engenheira. “Estou estudando mais hoje em dia e pensando no meu futuro, e estou me sentindo bem comigo mesma”, contou. Mas houve um tempo, quando ela presenciou as agressões contra a mãe, em que ficou depressiva. “Comecei a fazer aulas de teatro e descobri que a arte salva a vida”, disse, emocionada, ao contar de uma amiga que tentou suicídio.

A mãe de Beatriz, que atualmente trabalha como frentista, não pôde comparecer na ação do SAS Brasil, mas ela garantiu: “Vou contar para a minha mãe tudo que ouvi hoje e lembrá-la de como é importante pedir ajuda”. A garota levou as apostilas “Mulher, vire a página”, feitas pelo Ministério Público de São Paulo e que o projeto Anariá distribui para as mulheres nas ações. “Vou dar uma para a minha mãe e uma para minha amiga que não pôde vir!”, disse.

A advogada Yasmin Nunes, de 24 anos, conheceu o SAS Brasil por meio do pai, que atuou na equipe médica do Sertões por muito tempo. “Ele sempre me diz para participar do projeto social”, conta. Na ação da escola Samuel Klabin, Yasmin uniu duas paixões: como ela é maquiadora por hobby e advogada, pôde fazer um pouco das duas coisas que ama. “Foi muito gratificante poder ajudar as pessoas nesses dois vieses”, relatou.

Yasmin (primeira à esquerda) participou pela primeira vez de uma ação do SAS Brasil

“A ação foi muito emocionante para mim porque há pouco tempo presenciei agressões verbais e comportamentais”, revelou a voluntária, que espera participar da expedição SAS Brasil Sertões 2019, em agosto. “Fiquei muito emocionada com o depoimento da Beatriz, que mostra a realidade do nosso cotidiano, em que muita gente fica calada mesmo quando outros precisam de ajuda”. No depoimento emocionado, Beatriz contou que pessoas da família fizeram vista grossa e ignoraram a violência que a mãe sofria.

Para Yasmin, é gratificante ver que de alguma forma estamos oferecendo ajuda para essas pessoas. Ela diz que leva de aprendizado da ação que vítimas de violência doméstica não devem se calar e, por mais que seja difícil que pareça, devem tentar encontrar alguém com quem contar e espalhar a informação. E ela é enfática: “É preciso ajudar outras pessoas em situação de violência”. No projeto, o bordão “Em briga de marido e mulher…” termina diferente: aqui, todo mundo deve “meter a colher”.

Yasmin conta que uma pessoa da escola a procurou com um problema que está vivenciando em casa, de violência e até abuso sexual infantil. Segundo o depoimento da pessoa, que preferiu não se identificar, ela viu o genro tentando tirar a roupa de uma das netas. “A violência doméstica não tem idade e não vem apenas do companheiro”, diz a voluntária. Segundo ela, a mulher conversou com a filha, casada com o abusador, mas não fez mais nada por medo.

Saúde feminina em debate

A manhã teve início com uma palestra da médica ginecologista Giuliana Annicchino sobre saúde da mulher. Na conversa com o público, a médica residente do Hospital Albert Einstein discutiu temas como infecção urinária, higiene pessoal, como identificar diferentes tipos de corrimentos e quando procurar ajuda médica, prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, como aids, sífilis e hepatite, gravidez, camisinha e aborto, HPV, câncer de colo uterino e de mama, entre outros.

Cerca de 50 mulheres assistiram à palestra sobre saúde feminina e ao teatro

Na sequência, os atores voluntários do projeto Anariá de Valorização da Mulher encenaram a peça “Felizes para sempre”, em que atores voluntários do SAS Brasil mostram, de forma lúdica, como funciona o perigoso ciclo da violência, comum em ambientes domésticos e que, se não abordados com o devido cuidado, podem escalar para casos graves de violência contra mulheres.

Com as ações, o projeto Anariá de saúde e valorização da mulher levou, para um público de cerca de 50 pessoas, informações de qualidade tanto sobre a saúde física da mulher como sobre formas de lidar com a violência e onde buscar ajuda. As próximas ações do projeto em escolas têm inscrições abertas. As datas ainda não estão definidas.

Para a coordenadora do projeto Anariá, a advogada Helena, essa primeira ação do Anariá nas Escolas “serviu para entender com mais profundidade a necessidade da nossa presença nessa região”. “O ambiente que conseguimos criar por meio dos debates possibilitou um diálogo aberto, com espaço para muitas trocas, o que é fundamental para estimular a procura por ajuda para as vítimas de violência”, completa.